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O que fazer quando a situação de vida atual é a principal causadora da sua ansiedade?

No ano de 2006, tomei uma das grandes decisões da minha vida: interrompi a faculdade de Arquitetura e Urbanismo que eu cursava há mais de quatro anos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Iniciei a Psicologia e entrei em um caminho sem volta de amor a esta profissão!

Eis que em 2017 precisei tomar outra decisão destas que modificam totalmente o rumo da vida.

Para chegar à batida final de martelo, precisei parar, me afastar, refletir.

Passei por um processo de Coaching Psychology* que foi importantíssimo. Ao final deste processo, eu tive a certeza e estava louca para gritar ao mundo: d-e-c-i-d-i!

E decidi com a convicção do que estava fazendo, pois sabia por A + B que isso seria realmente bom para mim. Para a minha saúde mental, para a minha saúde física, para a qualidade dos meus relacionamentos, para a minha vida.

Sei que você deve estar se perguntando: mas que diabos ela decidiu que precisou de tanta análise?

Eu me exonerei de um concurso público.

Durante cinco anos e seis meses, fui concursada como psicóloga pela prefeitura de minha cidade. E isso me trouxe uma infinidade de aprendizados.

Conheci muitas pessoas queridas; conheci realidades que para mim só existiam em filmes; lidei com situações tão inusitadas que mais parecem histórias fantasiosas.

Neste tempo como concursada, passei por diferentes setores da prefeitura. Realizei trabalhos muito prazerosos, mas sempre tive a sensação de que faltava algo.

Faltava o brilho no olhar.

Faltava a empolgação.

Faltava sentir aquilo como um projeto de vida.

Após as sessões de Coaching, eu percebi exatamente o que faltava: aquele trabalho não estava conectado aos meus valores. Valores são aquelas coisas que o movem, que o fazem sentir-se pleno, feliz.

Quer saber os valores que me movem?

  • Bem-estar;
  • Liberdade;
  • Autonomia;
  • Desafio;
  • Diversão.

Pois é, no meu trabalho como concursada eu até conseguia alimentar um pouco cada um destes valores. Muito pouco. E este “pouco” não me bastava para ser feliz.

E aqui chegamos ao ponto que deu origem a este artigo: isso me gerava ansiedade, inquietude, uma imensa vontade de mudar.

Agora, vou lhe explicar melhor como a situação de vida pode afetar seus níveis de ansiedade, como ocorreu comigo.

A importância do contexto de vida

A ansiedade pode ser causada por múltiplos fatores, entre eles a herança genética e a maneira como você foi criado.

Porém, existe um fator que pode tanto intensificar quanto amenizar estas influências: o contexto em que você está inserido.

Vou ilustrar isso com dois exemplos.

Exemplo 1: Você nasceu com uma pré-disposição genética forte para ansiedade. Seus pais são muito ansiosos. Porém, você vive em um contexto que o protege do desenvolvimento dos sintomas:

  • seu trabalho é tranquilo;
  • você tem amigos para compartilhar suas dores;
  • sua companheira/seu companheiro é uma pessoa muito compreensiva.

 Talvez você passe a vida sem desenvolver sintomas de ansiedade.

Exemplo 2: Você não apresenta pré-disposição genética para ansiedade, mas vive em um contexto de estresses e pressões diárias:

  • seu chefe o pressiona para atingir metas;
  • você não tem apoio social;
  • sua companheira/seu companheiro não quer saber das suas queixas.

Você pode, sim, desenvolver um transtorno de ansiedade. 

Percebe o peso do contexto?

Então, aqui é onde quero chegar.

Quando existe a possibilidade de modificar o contexto em que você está inserido, pois ele é causador de estresse, você pode perceber uma mudança significativa em sua qualidade de vida.

Comigo aconteceu isso.

Eu estava em um contexto estressante. Não pelo trabalho em si, que era relativamente tranquilo, mas porque eu não estava me sentindo feliz lá, por toda aquela história dos valores que contei antes.

Como eu tinha a possibilidade de modificar minha situação, pois já estava bem estabilizada em meu outro trabalho (meu consultório próprio), tomei esta decisão e… não deu outra!

Mudança radical na qualidade de vida, realização profissional, satisfação geral comigo mesma, e… redução nos níveis de ansiedade.

Mas tudo isso só aconteceu porque eu fiz uma escolha. Tomei uma decisão.

Abri mão de algumas coisas (“estabilidade”, benefícios) para obter outras (muitas!) vantagens, como:

  • Tenho mais tempo para praticar exercícios físicos;
  • Estou mais exposta ao sol e consigo obter seus benefícios por passar mais tempo na rua;
  • Tenho mais tempo para minha vida pessoal;
  • Aproveito muito melhor as minhas atividades profissionais.

No meu caso, isso foi uma questão de escolha. Escolhi viver melhor. Mais tranquila. Menos ansiosa e atarefada.

Se você se identificou com o meu relato e percebe que está vivendo uma situação que contribui para elevar seus níveis de ansiedade, seja no trabalho, em casa ou na vida social, me acompanhe!

A primeira coisa que você precisa fazer é responder a seguinte pergunta:

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Onde está a pedra no seu sapato?

Você precisa ter clareza sobre quais são os fatores que estão tirando o seu sossego. Ou seja, dentro da situação que está incomodando você, qual é exatamente a parte que está elevando a sua ansiedade?

  • Seu chefe é muito exigente?
  • Seu filho está sem limites?
  • Seu marido/esposa não está ajudando em casa?
  • Seus colegas são desorganizados?
  • Você trabalha em um local muito distante da sua casa?
  • Você está recebendo um salário muito menor do que acredita merecer?

Lembre-se: pode não existir um fator tão óbvio como estes mencionados.

Você pode ter um salário maravilhoso, colegas legais, uma vida confortável e, mesmo assim, perceber que nada disso está alinhado aos seus valores (como aconteceu comigo).

Então, identificou onde está localizada a pedra no seu sapato?

Calma, não vá retirá-la assim, de forma brusca. Afinal, se você andou tanto tempo com ela é porque alguma utilidade ela tem. Talvez ela até faça uma pequena massagem nos seus pés!

Antes de retirá-la, olhe seu sapato de três ângulos diferentes:

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Ângulo 1: deixe seu sapato no chão e observe-o do alto

Afaste-se e avalie muito bem o cenário que você está vivendo.

Pegue um papel e uma caneta e dedique um tempo para responder as seguintes perguntas (eu garanto que elas valem ouro, e me ajudaram muito na hora de tomar a decisão. Claro que você vai substituir a “pedra” pelo seu problema!):

  1. O que você vai ganhar se tirar a pedra do sapato?
  2. O que você tem medo que aconteça caso a pedra saia do sapato?
  3. O que te mantém com a pedra exatamente onde está?
  4. O que está acontecendo de ruim que te impulsiona a tirar a pedra?

Lembre-se: é muito importante realizar um processo de decisão bem embasado.

Isso evita muitas lamentações posteriores e o deixa mais seguro para argumentar (consigo mesmo) por que resolveu seguir este caminho

Portanto, pense muito e, se for preciso, contrate um profissional especializado para auxiliar na condução deste processo. Evite arrependimentos desnecessários!

Após afastar-se e pesar prós e contras, você decidiu que a pedra realmente está atrapalhando? Então, observe seu sapato a partir do ângulo 2.

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Ângulo 2: chegue mais perto da pedra e veja como pode movê-la 

Avalie atentamente aquilo que realmente pode ser modificado.

Talvez você identifique que a pedra está machucando seu pé, mas a melhor saída é movê-la, e não retirá-la. Afinal, se você retirá-la, o sapato ficará grande e cairá do seu pé.

Pronto! Parta em busca de maneiras concretas e objetivas de resolver esta situação. Planeje maneiras de mover esta pedra e colocá-la em um lugar que lhe gere menos ansiedade.

Voltando ao meu exemplo.

Eu já havia feito tentativas de mover a pedra, ou seja, busquei trocas de setor dentro da prefeitura. Porém, isso não resolveu o meu problema. Precisei ser mais radical e retirar a pedra.

Independentemente do que você for fazer, o importante é agir. Comece agora a modificar aquilo que você identificou como um problema.

Mas lembre-se: aqui estamos falando apenas daquela parte do problema que pode ser modificada. Em muitos casos, existe uma parte dele (ou talvez tudo) que continuará com você.

E para lidar com esta parte, nada melhor que observar o seu sapato a partir de um terceiro ângulo.

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Ângulo 3: calce o sapato e avalie se pode continuar caminhando com a pedra

Aceite o que não pode ser modificado.

Você optou por mover a pedra, mas mantê-la no seu pé, para não perder o sapato. Certo?

Ok. Agora precisará trabalhar um ponto que chamamos de aceitação.

Você conhece a oração da serenidade? Ela diz mais ou menos o seguinte:

Concedei-me Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras”.

Entende a lógica?

Existem coisas nesta vida que infelizmente não podem ser modificadas. Neste caso, temos duas saídas:

  • Brigar diariamente com aquilo e gastar um bocado de energia em vão OU
  • Aceitar que não temos controle sobre tudo e que precisamos encarar a realidade assim como ela é.

Vamos para um exemplo prático.

Pode ser que você tenha identificado o seguinte problema: seu chefe é muito exigente e isso lhe causa muita ansiedade.

Porém, você adora o seu trabalho e não o trocaria por nada neste mundo. Além disso, não há perspectivas de troca de chefia.

Percebe que aqui não há nada que possa ser modificado?

Não há outra saída a não ser aceitar conviver com o “chato” do seu chefe.  Mas aceitar não significa ser passivo. Pelo contrário!

Veja bem o que quero dizer com “aceitar”.

Aceitar significa que você avaliou a situação, pesou prós e contras, sabe exatamente aonde quer chegar e, por isso, decidiu que está disposto a isso em nome de algo maior, que é o trabalho que você ama.

Você tem um propósito muito claro na sua decisão de aceitar conviver com o “chato”.

Então, após observar seu sapato destes três ângulos diferentes, mover a pedra e aceitar caminhar com ela em uma nova posição que fique mais confortável, só tenho mais uma coisa para lhe falar:

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Curta a caminhada!

Parece algo óbvio, mas nem sempre é assim que acontece. Quer ver?

Você realizou uma mudança espetacular em sua vida e, no dia seguinte, acorda com pensamentos do tipo: “Mas será que eu deveria ter feito isso?”.

Para piorar ainda mais as coisas, sua ansiedade se eleva. E você pensa: fiz tudo errado!

Calma, você não é o único. Isso é absolutamente normal. Sabe por quê?

Bem, um dos motivos é este: logo que você modifica algo em sua vida, seu cérebro pode demorar um tempo para assimilar. É a famosa “resistência à mudança”.

Então, ele lhe envia “recados” como: “Vamos voltar para a situação anterior? Já era familiar, confortável”.

E tem mais: nestas horas, você vai apenas lembrar-se das coisas boas que existiam, como se aquilo fosse um mar de rosas do qual você loucamente decidiu pular fora.

Não caia nesta arapuca!

Entenda que esta resistência é um processo natural e treine sua mente para viver o momento presente, que é a sua nova situação.

Entenda que sentir-se mais ansioso logo após a tomada de decisão também é natural, pois você está entrando em um mundo novo.

Isso pode gerar medos ou até mesmo certa “euforia” por achar tão bom este novo cenário.

Portanto, após realizada a mudança, apenas curta. Mas curta muito!

Aproveite tudo o que ela lhe trouxe de positivo e lembre: se você quis assim, é porque antes não estava legal!

E fique atento a um recado final:

 Se mesmo após:

  • realizar a mudança,
  • passar o momento inicial de resistência e
  • começar a curtir a nova vida…

… sua ansiedade continuar exatamente igual, é hora de avaliar a possibilidade de buscar auxílio profissional. Talvez a causa seja realmente outra.

E não há problema nisso! Você fez o que estava ao seu alcance até aqui, não é? Agora, basta dar continuidade!

Cuide de você! Seja gentil com você! Não exija tantos acertos. O importante é se movimentar em direção à melhora da sua saúde mental!

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Resumindo…

Entre os diversos fatores que interagem na intensificação ou redução dos níveis de ansiedade, está o contexto que você vive.

Quando existe a possibilidade de modificá-lo em nome da sua saúde mental, não hesite em fazer mudanças. Elas são difíceis, mas pode ter certeza que é muito mais difícil insistir em algo que não lhe faz bem.

Por outro lado, quando você não pode modificar a situação, lembre-se de trabalhar em si mesmo a aceitação. Não fique gastando energia mental e brigando com aquilo que não pode mudar.

Saia da posição de controle.

Quero terminar dizendo que eu já realizei diversas mudanças bem importantes em minha vida e nunca me arrependi de nenhuma.

Pelo contrário, minha vida deu uma virada muito positiva depois de cada uma. Sabe por quê?

Porque sempre pensei bastante, pesei prós e contras, e sempre tive como prioridade a minha saúde mental. Acima de qualquer coisa nesta vida!

Hoje, também sou coach (pois realizei a formação em Coaching Psychology) e ajudo pessoas a realizarem esta transformação em suas vidas, adotando dois princípios fundamentais:

  • Cada segundo da sua vida em uma situação estressante pode gerar custos altos à sua saúde!
  • Nunca espere para ser feliz ou para melhorar sua saúde mental. Amanhã pode ser tarde demais.

E você? Já teve momentos de virada em sua vida? Conte nos comentários!

* Coaching Psychology: Coaching é um processo de desenvolvimento humano em que o profissional (coach) e seu cliente (coachee) estabelecem uma relação de parceria. O coach estimula o coachee a alcançar um objetivo de vida que esteja mais alinhado com seus valores, ou seja, com aquilo que realmente importa e faz sentido para ele. No caso do Coaching Psychology, o processo é exercido por profissionais com graduação em Psicologia, preferencialmente por psicólogos com pós‐graduação e aprimoramento contínuo na área. Psicólogos‐coaches utilizam ferramentas e técnicas de Coaching embasadas em dados cientificamente validados pela Psicologia.

Natália Rigatti

Psicóloga (CRP 07/20324), apaixonada por esportes e alimentação saudável, praticante de corrida de rua e defensora da busca pelo bem-estar e qualidade de vida das pessoas. Em 2012 iniciou o trabalho na Clínica com psicoterapia individual, e em 2013 tornou-se Especialista em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental.

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