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A verdade que não contaram a você sobre suas preocupações

Júlio está sempre preocupado. Ele se preocupa com o fato de seu filho Pedro estar com dificuldades na escola.

Quando Pedro sai com os amigos e não volta no horário combinado, Júlio começa a se questionar se o filho passou mal ou foi assaltado.

Todas as noites, preocupa-se com a possibilidade de não haver nenhum cliente em seu restaurante, do qual é proprietário.

Em dias de pouco movimento, pergunta-se se vai ter dinheiro no final do mês para pagar suas contas. 

A lista de coisas com que Júlio se preocupa é interminável. Nada em sua vida parece estar tranquilo.

Pois é. A saúde de Júlio sofre as consequências.

Quando Júlio vai para a cama, tem dificuldades para dormir. Ele se vira na cama e fica tenso, ouvindo seu coração. Tenta relaxar, mas não consegue. Está certo de que esta noite mal dormida prejudicará seu dia de trabalho.

Além disso, sente dores de cabeça e tensão muscular, o que o faz pensar que está com sérios problemas de saúde.

Assim como Júlio, existem muitas pessoas que se preocupam de forma excessiva.

Mas afinal, o que é uma preocupação?

Quando falo sobre preocupações neste texto, não estou me referindo àquelas que todos temos em nosso dia a dia. Estas fazem parte da condição humana. Não há nada de errado nisso.

Aqui estou falando sobre preocupação excessiva: uma forma de construir cenários em sua mente.

Ou seja, você escolhe alguma situação de sua vida (como por exemplo, sua próxima viagem de carro) e tenta analisá-la de todas as formas possíveis, para evitar surpresas.

Assim, você cria uma série de e se: “E se o pneu furar? Terei que ligar para o Fulano”; “E se o carro estragar? Precisarei acionar o seguro”; “E se um caminhão vier por cima de mim? Quem vai cuidar dos meus filhos se eu morrer?”.

Portanto, quando você se preocupa em excesso, você realiza dois processos:

  1. Avalia a situação como mais ameaçadora e perigosa do que ela realmente é;
  1. Avalia a si mesmo como uma pessoa que não possui recursos suficientes para enfrentar a situação. Logo, não poderá dar conta do que vier a ocorrer.

Resultado? Aumento da ansiedade, além de consequências como tensão muscular, irritabilidade, dificuldade de concentração e perturbação do sono.

Mas então por que, apesar de todas estas consequências, você continua se preocupando?

(Aqui começa a grande verdade sobre as suas preocupações)

Possivelmente porque, sem se dar conta, você percebe algumas vantagens no ato de se preocupar.

Ou seja, apesar de as preocupações serem algo que aparentemente traz consequências desagradáveis, você pode apresentar algumas crenças (nem sempre conscientes) que lhe ensinam que se preocupar é algo positivo.

E agora perceba a lógica da coisa: tudo o que você percebe como vantajoso você buscará manter em sua vida!

Portanto, estas crenças são um dos fatores responsáveis por manter (e intensificar) as suas preocupações.

Quer saber quais são estas crenças e como questionar sua validade? Acompanhe o texto então!

Lembrado que este artigo é apenas uma maneira de informá-lo sobre algumas características da preocupação. Para que você possa tratar o problema, deve buscar um profissional especializado.

Crença 1 - preocupação

# CRENÇA 1: Ser preocupado é uma característica positiva de sua personalidade

Você acredita que o fato de ser preocupado mostra que você é uma pessoa cuidadosa e consciente.

Você pensa que deixando de se preocupar, seus amigos e familiares vão pensar que você não se importa com eles.

Mas então isso significa que pessoas que se preocupam menos são menos cuidadosas?

É claro que isso não é verdade! Possivelmente você conheça alguém que não se preocupa em excesso e é muito amoroso e cuidadoso.

Duas dicas valiosas:

  1. Existem muitas outras formas de demonstrar cuidado e afeto (que não sejam se preocupando). Exemplo: dando um abraço no seu filho quando ele chega da escola;
  1. Lembre de pessoas que consideram suas preocupações uma característica negativa de sua personalidade. Exemplo: seu namorado reclama que você o sufoca ou chateia demais.

Crença 2 - preocupação

# CRENÇA 2: Suas preocupações podem protegê-lo de sentimentos ruins

Esta é a crença que faz você pensar que se preocupando antecipadamente com um possível evento negativo, você se previne de sentir emoções negativas quando ele ocorrer.

Exemplo: “Se eu me preocupar com a possibilidade de meu filho se machucar na escola, serei capaz de lidar com isso, caso ocorra, sem ficar consumido pela tristeza”.

Ou seja, se preocupar é como fazer uma “poupança” de emoções negativas. Assim, quando o fato ocorrer, você já viveu aquele sentimento ruim preventivamente, sendo menos afetado pelo acontecimento no futuro.

Porém, aqui está a verdade sobre esta crença: quando ocorrem fatos negativos, quem se preocupou “de véspera” não se sentirá melhor do que quem não se preocupou.

Duas dicas valiosas:

  1. A preocupação não protege ninguém de sentimentos negativos. Sabe por quê? Porque ninguém está de fato preparado quando acontece algo inesperado, como a perda repentina de uma pessoa próxima;
  1. Preocupar-se com coisas que talvez nunca ocorram apenas aumenta suas emoções negativas no momento presente.

Crença 3 - preocupação

# CRENÇA 3: Se você se preocupar, você encontrará soluções para seus problemas

Você acredita que se preocupando, você encontrará soluções melhores para seus problemas. 

Esta crença até possui uma parcela de verdade, pois em alguns casos, níveis baixos de preocupação ajudam a gerar soluções para os problemas.

Porém, níveis elevados de preocupação fazem você pensar em como suas soluções poderiam falhar. Além disso, você fica tão ansioso que acaba adiando a resolução de seus problemas.

Duas dicas valiosas:

  1. Observe se quando você se preocupa você realmente resolve seus problemas ou apenas fica pensando neles sem parar;
  1. Tente substituir suas preocupações por ações, criando planos de enfrentamento com estratégias para resolver seus problemas. Exemplo: você está preocupado com o prazo para entregar seu trabalho. Que ações você pode executar hoje? E amanhã?

Crença 4 - preocupação

# CRENÇA 4: Ficar se preocupando vai garantir que você cumpra suas obrigações

Aqui, seu raciocínio é o seguinte: se você se preocupar com algo que precisa ser feito, isso garantirá que aquilo de fato seja executado.

Veja um exemplo: “Se eu me preocupar com minhas notas na faculdade, estudarei mais e me sairei melhor nas provas”.

Sabe qual o principal problema desta crença? Ela confunde preocupação com cuidado, dedicação.

Porém, se uma pessoa se preocupa menos com uma prova, isso não significa que ela será relapsa e deixará de estudar. Pelo contrário: significa que ficará menos ansiosa com a prova enquanto se prepara para ela.

Lembre-se: excesso de preocupação pode levar à inatividade, gerando o efeito inverso daquele que você imagina.

Duas dicas valiosas:

  1. Há muitas pessoas que cumprem com todas as suas obrigações e são muito dedicadas, mas não são excessivamente preocupadas;
  1. Você pode ser muito bem-sucedido no seu trabalho sem se preocupar com isso o tempo todo. Não confunda preocupar-se com importar-se!

 Crença 5 - preocupação

# CRENÇA 5: Suas preocupações podem impedir que coisas ruins aconteçam

Você acredita que se preocupando poderá evitar que algo negativo aconteça.

Aqui, existem diversas falhas lógicas, pois a não ocorrência de um evento pode se dever a inúmeros fatores.

Por exemplo: você pode acreditar que o carro em que você estava não se acidentou porque você se preocupou com isso antecipadamente. Porém, a causa pode ser atribuída à habilidade do motorista, às condições favoráveis da estrada ou às boas condições climáticas.

Duas dicas valiosas:

  1. Observe quantas coisas negativas já lhe aconteceram mesmo quando você se preocupou com elas. Você se preocupou com uma prova e mesmo assim, tirou uma nota ruim?
  1. Observe quantas coisas positivas já lhe aconteceram mesmo quando não se preocupou com elas. Alguma vez você não se preocupou com um trabalho e mesmo assim o desenvolveu de forma eficaz?

Resumindo

Resumindo…

Não existe vida sem preocupações. Mas também não existe vida (com qualidade) quando há excesso de preocupações.

Portanto, se você percebe que está sendo consumido por suas preocupações, dedique um tempo para avaliá-las.

Busque as causas para a manutenção das suas preocupações excessivas. Uma delas pode ser o repertório de crenças que você tem (e nem sempre se dá conta disso) sobre o lado bom da preocupação.

Este texto abordou 5 destas crenças:

Crença 1: Ser preocupado é uma característica positiva de sua personalidade;

Crença 2: Suas preocupações podem protegê-lo de sentimentos ruins;

Crença 3: Se você se preocupar, você encontrará soluções para seus problemas;

Crença 4: Ficar se preocupando vai garantir que você cumpra suas obrigações;

Crença 5: Suas preocupações podem impedir que coisas ruins aconteçam.

Então, se você identificou uma ou mais destas crenças, questione sua validade. Você pode estar confundindo preocupação com outras características positivas como cuidado e dedicação, que podem o ajudar muito mais no seu dia a dia.

* Este texto utiliza como base a seguinte referência:

Dugas, M. J. & Robichaud, M. (2009). Tratamento cognitivo-comportamental para o transtorno de ansiedade generalizada. Rio de Janeiro: Cognitiva.

Natália Rigatti

Psicóloga (CRP 07/20324), apaixonada por esportes e alimentação saudável, praticante de corrida de rua e defensora da busca pelo bem-estar e qualidade de vida das pessoas. Em 2012 iniciou o trabalho na Clínica com psicoterapia individual, e em 2013 tornou-se Especialista em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental.

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