Manutencao Da Ansiedade

Você evita situações que o deixam ansioso(a)? Saiba por que isso não passa de uma cilada

Maria está cursando pós-graduação e não consegue expressar sua opinião em sala de aula, pois tem medo de ser avaliada negativamente pelos colegas ou até mesmo ser ridicularizada diante de todos.

Todas as vezes em que se imagina levantando a mão e fazendo uma pergunta, sua ansiedade se eleva, gerando sintomas como palpitações, tremores e falta de ar.

Qual você acha que é a forma mais efetiva de Maria reduzir a sua ansiedade?

a) Evitar a situação: desistir da ideia de fazer perguntas ou dar opinião, afinal, ela não é obrigada a falar durante as aulas. Os colegas que falem! Assim, sua ansiedade não se elevará.

b) Enfrentar a situação: expressar-se oralmente em sala de aula, mesmo sentindo ansiedade.

Neste artigo, falarei detalhadamente sobre o que acontece ao ser escolhida a opção “a”, ou seja, evitar as situações que causam ansiedade.

No final do artigo, farei uma breve explicação sobre a opção “b”. Porém, se quiser obter uma compreensão mais ampla sobre este item, sugiro que leia o artigo “Academia da ansiedade: aprenda a exercitar seu músculo do desconforto”.

Então, vamos lá!

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Opção “a”: Evitar a situação que causa ansiedade

No caso de Maria, ao escolher a opção “a”, ela realiza o que chamamos de evitação: não encara a situação que lhe provoca ameaça. Assim, naquele momento se sente segura, mantendo a ilusão de que as coisas estão sob controle.

Mas então, o que há de ruim nisso?

No momento em que Maria decidiu não fazer a pergunta que gostaria de fazer, ocorreu o seguinte processo (que fique claro que é apenas um exemplo para que você entenda como funciona a mente ansiosa):

1. Maria respirou, aliviada… Ufa! E pensou: “Que bom! Não preciso me expor!”.

2. Logo em seguida, sentiu-se desanimada. Suas crenças de incapacidade foram ativadas e ela pensou: “Não sou capaz de falar diante de outras pessoas. Todos perceberiam que estou nervosa”.

3. Nas aulas seguintes, o mesmo ciclo se repetiu, o que fez sua autoestima reduzir, surgindo o seguinte pensamento: “Nunca conseguirei me expor. Sou um verdadeiro fracasso”.

Percebe a cilada?

Maria acabou de virar prisioneira do seu medo e da sua ansiedade. A fuga e a evitação da situação que ela considera ameaçadora acabaram contribuindo para a manutenção da sua ansiedade, em um ciclo que a mantém refém das próprias escolhas.

E você? Já se armou esta cilada?

Vou te ajudar a descobrir.

Dependendo a forma como a ansiedade se manifesta para você, pode existir uma tendência a considerar mais difícil o enfrentamento de algumas situações.

Imagine que você seja desafiado a cumprir alguma das seguintes tarefas, porém não existe nenhuma obrigação, ou seja, você é livre para escolher se aceita ou não:

  • Realizar uma palestra;
  • Convidar uma pessoa para sair;
  • Estacionar o carro naquela vaga complicada;
  • Entrar no quarto quando aquela aranha gigante está na parede;
  • Andar de avião.

Tudo bem, você pode estar pensando: isso não é uma questão de escolha! É muito difícil para mim! Sim, e é difícil mesmo. Eu não disse que seria fácil. Mas logo você entenderá onde quero chegar.

Talvez você também possa estar pensando: não vejo problema algum em realizar qualquer uma destas tarefas. Neste caso, esclareço que eu trouxe apenas cinco exemplos, dentro de uma imensidão de situações que podem gerar ansiedade. Então, seu caso pode não ter sido mencionado nestes itens.

Também pode acontecer que você seja uma pessoa que embora sinta ansiedade, consegue enfrentar as situações e não deixa de realizar atividades por estar ansioso. Neste caso, te informo que você está lidando com a ansiedade de forma saudável!

Bom, mas se você se sente ansioso ao pensar sobre qualquer uma das cinco tarefas citadas (ou qualquer outra atividade que deseja realizar), a tendência é de que surja um dilema.

O dilema que se coloca é o seguinte: você gostaria de aceitar o desafio (por exemplo, de fazer a palestra), porém, acha que não será capaz de realizar, afinal, aquilo lhe provoca diversos sintomas de ansiedade.

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Fazer ou não fazer, eis a questão!

Se você escolher embarcar em qualquer uma destas situações, a ansiedade pode surgir. Com ela, surge o desconforto.

Então, podem surgir questionamentos como: mas para que eu preciso estacionar naquela vaga apertada se logo à frente existe outra maior? Para que eu preciso realizar uma palestra se posso ficar bem quietinho no meu canto, sem me estressar?

Sim, fugir ou evitar uma situação que causa ansiedade são respostas naturais do organismo diante da percepção de ameaça ou perigo.

Porém, cada vez que você foge ou evita uma situação para se sentir mais seguro naquele momento, você perde a oportunidade de desativar o seu aplicativo da ansiedade. Como assim?

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O aplicativo da ansiedade

Imagine que sua ansiedade seja um aplicativo no seu celular criado para detectar qualquer sinal de perigo existente à sua volta. Ele passa o dia todo lhe mandando notificações sobre situações perigosas que você deve evitar.

Então, você está caminhando na rua e de repente recebe uma mensagem no celular: “Está ficando frio; pegue um casaco ou você ficará gripado!”. E você imediatamente vai até a sua casa e pega o casaco.

Mais alguns minutos, e uma nova mensagem: “Cuidado! Não entre neste ônibus, pois ele está lotado e talvez você não consiga sair dele quando quiser”. Você então não entra no ônibus e se atrasa para o trabalho, causando inclusive um desentendimento com seu chefe.

Alguns segundos se passaram, e mais um alerta no celular, enquanto você atravessa a rua: “Saia correndo, pois este carro está muito rápido!”. E você imediatamente dispara, para sair o mais rapidamente possível do meio da rua.

E assim, se passa o seu dia: constantemente em estado de alerta.

Algumas vezes, este aplicativo lhe ajuda, pois lhe protege de situações que poderiam ser perigosas. Porém, em outras, ele é exagerado. Ele avisa, de forma inadequada, sobre ocorrências que seriam apenas desconfortáveis, mas na realidade não ofereceriam perigo algum.

Nestes casos, é preciso desativar o aplicativo, agradecendo por seu aviso, mas mostrando a ele que você poderá lidar com aquela situação.

Você pode se questionar, por exemplo: o que de pior pode acontecer se eu não conseguir sair de um ônibus porque ele está lotado? Eu conseguiria lidar com isso? Que estratégias poderia adotar?

Desta forma, você passa a analisar a situação de forma mais real. Caso contrário, você passará o dia inteiro cumprindo ordens, de forma automatizada.

É, a ansiedade funciona como este aplicativo: está sempre lhe mandando mensagens sobre possíveis perigos existentes. Para não virar escravo dela, você precisa desenvolver formas efetivas de desligá-la quando ela é inadequadamente ativada.

Então, como você desativa este aplicativo?

Aqui entra a opção “b” mencionada no início do artigo, quando descrevi a situação de Maria.

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Opção “b”: Enfrentar a situação que causa ansiedade

Esta opção te convida a agir de outra forma.

Aqui, a ideia é que você aprenda a fazer as coisas mesmo quando elas provocam ansiedade, ou seja, aquela velha máxima: se der medo, vai com medo mesmo!

Portanto, ao invés de evitar as situações, passe a enfrentá-las. Comece por algo mais fácil e vá traçando metas mais difíceis.

No caso de Maria, a opção descrita no item “b” dizia o seguinte: “Expressar-se oralmente em sala de aula, mesmo sentindo ansiedade”.

Então, neste caso, ela pode iniciar fazendo pequenos comentários em sala de aula (repetidas vezes), até que perceba que não foi ridicularizada pelos colegas, nem avaliada de forma negativa. Quando começar a se sentir mais confiante, Maria pode começar a fazer perguntas mais complexas, e assim sucessivamente.

Seguindo esta lógica, Maria começa a desafiar suas crenças sobre a reação das outras pessoas.

Ela tem a oportunidade de aprender com a experiência e verificar se suas previsões estavam corretas ou não, podendo com isso diminuir sua sensibilidade aos sinais de alerta do ambiente.

Não se iluda achando que ela não ficará ansiosa ao fazer isso.

Ela sentirá ansiedade!

A grande mudança está em aceitar este fato, e não combatê-lo. Aqui está a chave para desativar o aplicativo. Entender que se pode (e se deve) suportar o desconforto que a ansiedade gera, em nome de um objetivo maior: aprender a lidar com ela e libertar-se de sua prisão.

Uma consequência importante desta mudança de comportamento é o aumento da autoestima.

Ou seja, quando você decide enfrentar algo e percebe que conseguiu fazer aquilo e sobreviveu, a probabilidade de você se sentir realizado e confiante para assumir novos desafios é muito maior!

RESUMINDO…

Diante de situações que lhe provocam ansiedade, sempre são oferecidos dois caminhos: o primeiro, mais confortável; o segundo, mais trabalhoso, desafiador e muitas vezes cansativo. Porém, muito mais recompensador.

Então, resumindo a lógica do que foi abordado neste artigo, temos as seguintes sequências de eventos:

Você sente medo/ansiedade  evita a situação  autoestima baixa  o ciclo se renova e você permanece se sentindo desta forma, vivendo na prisão de sua ansiedade (CILADA!).

Você sente medo/ansiedade  enfrenta a situação  autoestima se eleva  você começa a aprender a lidar com o desconforto causado pela ansiedade e se liberta de sua prisão, sentindo-se cada vez mais confiante para enfrentar novas situações (PONTO PARA VOCÊ!)

A segunda opção, mais funcional, te ensina a lidar com a ansiedade de forma mais inteligente e saudável. Então, comece a praticá-la e perceba as mudanças acontecendo!

Natália Rigatti

Psicóloga (CRP 07/20324), apaixonada por esportes e alimentação saudável, praticante de corrida de rua e defensora da busca pelo bem-estar e qualidade de vida das pessoas. Em 2012 iniciou o trabalho na Clínica com psicoterapia individual, e em 2013 tornou-se Especialista em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental.

Este artigo tem 8 comentários

  1. Deo

    Adorei o assunto, boa materia. Viu, você já usou esse colchão que é novidade o tal do colchão inteligente pra me contar se é daquee que trata insonia? O neurologista indicou que trata circulação. http://ocolchaointeligente.com.br Parece que diminui até insonia.

    1. Natália Rigatti

      Oi, Deo! Realmente não tenho como lhe falar sobre este colchão pois não tenho conhecimento sobre ele. Mas acessei o site e achei muito interessante! Vou me informar melhor. Muito obrigada pelo seu comentário! Um abraço!

  2. Rodrigo

    Muito bom o texto. Tem linguagem fácil e uma lógica muito boa de ensinar. Meus parabéns.

    1. Natália Rigatti

      Muito obrigada, Rodrigo! Que bom que gostou! Um abraço!

  3. Thiago

    Olá, Natália. Seus textos são excelentes. Você escreve muito bem e é tudo bastante gostoso de se ler. Eu acho que tenho níveis altos de ansiedade desde que me entendo por gente. Já me comporto (ou tento me comportar) de formas que você considera mais adequado, mesmo antes de conhecer o site. Muitas vezes me sinto tranquilo, mas muitas vezes a ansiedade vem com bastante intensidade e eu perco parte das habilidades que eu tinha para me manter “sob controle”. Enfim, o site é excelente! Vou acompanhar sempre!

    1. Natália Rigatti

      Oi, Thiago. Muito obrigada! Que bom que está gostando, fico feliz em poder contribuir de alguma forma! Estas variações nos níveis de ansiedade são naturais, e quanto mais você aprender a lidar com elas, menos assustadoras elas ficarão. Se tiver sugestões de assuntos para futuros textos, fique à vontade para enviar. Um abraço!

  4. Éder

    Gostaria de saber se esse artigo sobre ansiedade é sobre medos irracionais também que devem ser enfrentados?

    1. Natália Rigatti

      Bom dia, Éder!!

      A resposta é sim. Existem muitas situações, como as fobias, por exemplo, em que os medos são excessivos ou irracionais. Para estes casos, torna-se fundamental realizar o enfrentamento dos medos para que eles possam diminuir. Se quiser entrar em maiores detalhes e me explicar sobre quais medos está se referindo, pode enviar um e-mail para natalia@debemcomaansiedade.com.br. Muito obrigada pelo comentário, poderá auxiliar outras pessoas que estão com a mesma dúvida. Um abraço!!

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