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Afinal, como deixar a ansiedade fazer parte da sua vida?

Quem acompanha o meu trabalho sabe que há muito tempo venho batendo nesta tecla: deixe a ansiedade entrar na sua vida, pare de lutar contra ela!

Porém, recebo muitas perguntas sobre como fazer isso. Afinal, é tão desagradável sentir ansiedade! A ideia de deixá-la fazer parte do seu dia a dia parece que irá tornar tudo mais pesado, não é?

É exatamente aí que você se engana. Deixa eu lhe fazer uma pergunta: as estratégias que você vem utilizando até hoje para evitar que ansiedade surja estão funcionando? Você realmente percebe que a sua ansiedade está reduzindo?

O que eu quero lhe mostrar neste texto é como se sentir melhor a longo prazo, e não no dia de hoje. Como assim?

Existem milhares de estratégias para reduzir a ansiedade no momento em que ela surge, como técnicas de respiração, distração, algumas meditações, entre tantas outras. Todas são excelentes e necessárias de serem adotadas por quem sofre de ansiedade. Aliás, se você ainda não pratica nada disso, sugiro que comece, pois vai ajudá-lo(a) a melhorar muito sua qualidade de vida.

Porém, todas estas técnicas podem passar uma mensagem à sua mente de que você precisa se livrar da ansiedade quando ela aparece. Por exemplo: você começa a se sentir ansioso(a) e logo começa a respirar de forma mais lenta e profunda. Ótimo, seus níveis de ansiedade possivelmente irão diminuir, mas seu cérebro terá registrado que sentir ansiedade é algo perigoso. Além disso, a pergunta que fica é: você permitiu que a ansiedade chegasse?

Então, nada disso fará um efeito duradouro se você não mudar a lógica do seu pensamento. Por isso, vou lhe ensinar agora a técnica “RAC” para deixar de vez a ansiedade fazer parte da sua vida (só deixando claro que esta sigla é invenção minha, viu?).

A técnica “RAC” propõe 3 passos: R (reconheça); A (aceite); C (conviva). Veja como funciona:

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1. Reconheça/identifique

O primeiro passo para você deixar a ansiedade entrar na sua vida é reconhecer que você sente ansiedade e que ela se eleva em algumas situações.

Perece simples, mas muitas pessoas não conseguem identificar que aquilo que sentem é realmente ansiedade. Então, vou lhe dar algumas pistas de como identificar se o que você sente pode ser ansiedade.

a) Como fica o seu corpo

Quando você está ansioso(a), seu corpo dá sinais: seu coração acelera; suas mãos ficam frias e trêmulas, às vezes dormentes; você sente falta de ar; sudorese; náuseas, entre tantas outras modificações importantes.

Isso é seu corpo expressando uma reação de luta/fuga, preparando-se para agir diante de um possível perigo que sua mente detectou.

b) Como fica a sua mente

Sua mente é aquela que mais prega armadilhas no momento em que surge a ansiedade. Nela, são produzidos pensamentos como: “vou passar mal”, “vou morrer”, “vou enlouquecer”, “não vou dar conta disso”, entre outros.

É como se neste momento, seu cérebro fosse inundado por sinais de alerta que ordenam: há um perigo iminente.

c) Como fica o seu comportamento

Diante de todas estas mudanças provocadas no seu corpo e mente, é natural que seu comportamento se modifique também. Então, pode acontecer de você querer ficar mais sozinho(a)/isolado(a) ou, pelo contrário, querer estar perto das pessoas; você pode ficar mais quieto(a) ou então começar a falar sem parar; você talvez fique mais agitado(a) ou pode ficar totalmente paralisado(a).

Cada pessoa reage de uma forma diferente. A questão é que alguma mudança acontece no corpo, na mente e no comportamento em momentos de ansiedade. Portanto, após reconhecer: “sim, estou ansioso(a)”, você pode ir para o próximo passo.

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2) Aceite

Agora que você já reconheceu que sente ansiedade, você precisa aceitar que ela esteja presente, ao seu lado, durante toda a sua vida. O que? Achou que eu ia lhe ensinar a se livrar dela? Claro que não!

Você precisa entender que a ansiedade é um sentimento como outro qualquer (raiva, alegria, tristeza), portanto, não existe a possibilidade de excluí-la da sua vida. Até porque, sem ansiedade, você estaria desprotegido(a) de muitos perigos reais.

Então, torne a ansiedade sua parceira de caminhada. Quando começar a perceber que seus sintomas estão se intensificando, ao invés de buscar imediatamente se livrar deles, pare e diga a você mesmo(a): “Certo, ansiedade, pode chegar!”.

Fazendo isso, você vira uma chave na sua mente. Você passa a você mesmo(a) o recado de que sentir ansiedade não é perigoso, é apenas desagradável.

Lembre-se: a ansiedade não pode subir, subir, subir, indefinidamente. Sabia disso? A ansiedade, assim como outros sentimentos, após começar a se intensificar, atingirá seu pico (em algumas situações), permanecendo lá por um tempo. Após atingir este pico, ela necessariamente começa a diminuir.

Podemos fazer uma comparação com um sentimento mais confortável, como a felicidade: mesmo em um momento muito feliz da sua vida, você não consegue se sentir feliz, feliz, feliz, e nunca mais voltar ao seu padrão habitual. Chega um momento em que a “euforia” vai diminuindo e há um retorno à estabilidade do humor. Percebe? Você não tem como ficar alegre, alegre, alegre, até que isso o(a) leve à morte. Então, por que essa regra também não pode valer para a ansiedade?

Resumindo tudo isso: você não vai morrer em um pico de ansiedade (embora essa talvez seja a previsão que você faz). Você vai apenas sentir um desconforto grande.

Agora que você sabe de tudo isso, fica mais fácil aceitar que a ansiedade faça parte da sua vida? Então, você já está pronto(a) para o próximo passo.

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3) Conviva

Bom, agora que você já praticou a aceitação, você está liberado(a) para aplicar técnicas de respiração, meditação, ou o que tiver vontade e lhe fizer bem.

Sim, porque agora você irá praticar tudo isso sem a intenção de se livrar da ansiedade, mas pelo contrário, para conviver melhor com ela!

Esta diferença de ponto de vista é muito, mas muito importante.

Então, lembre-se de que, para viver bem com ansiedade, é fundamental que você realize mudanças em seus hábitos de vida. Aqui, estou me referindo a alguns itens como: alimentação saudável, prática regular de exercícios físicos e meditação, contato com pessoas queridas, exposição ao sol, enfim, tudo o que possa beneficiá-lo(a).

Entenda quais são as coisas que fazem bem a você e permita-se ampliar seus horizontes, abrindo-se a novas mudanças.  Ou seja, se você nunca praticou meditação, conheça algumas práticas. Se ainda não se alimenta de forma saudável, faça um teste por pelo menos um mês para sentir os efeitos em sua saúde física e mental.

Em alguns casos, iniciar a prática regular de um exercício físico, por exemplo, já causa uma melhora bem significativa na qualidade de vida. Existe uma cadeia de substâncias benéficas ao corpo que são produzidas durante a atividade física, que servem como fatores protetores aos sintomas de ansiedade.

E lembre-se: é sempre importante prezar pela prevenção, independente do nível de sua ansiedade hoje. Mesmo que já esteja em um patamar elevado, é possível prevenir que se intensifique ainda mais. Você só tem a ganhar com isso!

Natália Rigatti

Psicóloga (CRP 07/20324), apaixonada por esportes e alimentação saudável, praticante de corrida de rua e defensora da busca pelo bem-estar e qualidade de vida das pessoas. Em 2012 iniciou o trabalho na Clínica com psicoterapia individual, e em 2013 tornou-se Especialista em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental.

Este artigo tem 6 comentários

  1. Flavia Maria

    Oii, boa noite, gosto demais da sua abordagem sobre ansiedade, parabéns pelo conteúdo. O x da questão é só aceitar sem surtar kkkkkk, rindo agora mais nos momentos de crise só rola suor e lágrimas

    1. Natália Rigatti

      Bom dia, Flavia! Ahh muito obrigada pelo retorno, fico muito feliz de saber que você gosta! :) Verdade, mas lembre que isso é um processo, vai acontecendo um pouco por dia. Não é fácil, mas é possível. Um grande abraço a você!

  2. Fábio Soares

    Foi assim que aprendir a ser feliz com a ansiedade. Não deixo de fazer nada por está ansioso, e logo passa.

    1. Natália Rigatti

      Boa tarde, Fábio! Nossa, muito legal ler seu relato. É exatamente este o caminho. Muito obrigada por compartilhar conosco sua experiência! :) Um grande abraço!

  3. luiz junior

    Olá. Muito boas as palavras de você Natália.
    Há um tempo estou lutando contra a ansiedade, principalmente de uns dois anos pra cá onde minha vida profissional teve uma severa mudança.
    Mas é bem assim que acontece: quando a ansiedade começa, não sabemos qual motivo e a primeira reação é lutar pra passar o mais rápido possível. Talvez tentando aceitá-la torna-se menos doloroso este processo.
    O interessante é que, ao mesmo tempo que ela vem do nada, também acaba do nada, como o acender e apagar de uma lâmpada. Pelo menos comigo é assim.
    Muito obrigado pelas dicas.
    Abraço!

    1. Natália Rigatti

      Bom dia, Luiz! Eu que lhe agradeço por este retorno tão positivo :) É muito bom saber que você já consegue lidar de uma forma mais saudável com a sua ansiedade. Muito obrigada pela sua generosidade em dividir seu relato aqui conosco. Um grande abraço!

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